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Águias à solta em Santo Tirso e na Trofa

Águias à solta em Santo Tirso e na Trofa

O Sport Lisboa e Benfica prepara-se para abrir duas novas escolinhas de futebol nas cidades de Santo Tirso e da Trofa.

 No próximo dia 14 de Março (Domingo) o Benfica arranca com mais duas escolas de futebol, desta vez nas cidades de Santo Tirso e da Trofa. A escola terá como directores Bruno Fernandes e José Figueiredo, actuais dirigentes da escola do Benfica de Famalicão.

 As escolas do Benfica destinam-se a crianças dos 3 aos 14 anos de idade (excepcionalmente até aos 16 anos) do sexo masculino e feminino, e têm como objectivo a ocupação dos tempos livres, a prática desportiva na modalidade de futebol e a captação de talentos para o Sport Lisboa e Benfica.

As novas escolas de Santo Tirso e da Trofa vem juntar-se ao projecto que comemora nesta altura um ano na cidade de Famalicão e conta com 110 atletas inscritos.

Para a abertura destas novas escolas foram celebrados protocolos com a Câmara Municipal de Santo Tirso e com a Academia da Louseira na Trofa. O objectivo destas 3 escolas passa por criar a curto prazo equipas “selecção” para competir no campeonato federado.

A abertura acontece no Polidesportivo Municipal de Santo Tirso no próximo Domingo às 15 horas e contará com a presença do símbolo vivo do Sport Lisboa e Benfica, a águia Vitória.

_ José Figueiredo

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Café com… Delfim Manuel

Café com… Delfim Manuel

Esta quinzena, o STH tomou café com o artesão Delfim Manuel, na Casa da Eira, em Rebordões. Este espantoso e singular artista da cerâmica somou, ao longo de dez de actividade, um impressionante conjunto de dez prémios de artesanato. Entre estes, constam o prestigiado prémio da Feira Internacional de Lisboa (FIL) e o prémio da Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde que arrecadou, em Agosto, com a obra “Depois do trabalho”. Numa conversa improvisada, o artesão pronunciou-se sobre os desafios inerentes ao universo da modelação. Como o próprio afirma: “Só ficarei satisfeito quando os bonecos falarem”.

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Primeiros Passos

Comecei a trabalhar com cerâmica por volta dos dez anos de idade, na Fundação Castro Alves, em Bairro. Andava na escola de música da mesma fundação e, na altura, o comendador Castro Alves lembrou-se de montar uma escola de cerâmica que veio a abrir no dia dez de Junho de 1979. Conjuntamente com 20 miúdos, ingressei no curso. De manhã, ia para a escola em Famalicão e durante a tarde estudava cerâmica na Fundação. Ao fim de dois anos, não quis continuar a estudar e dediquei-me, a tempo inteiro, à cerâmica. Ao todo, mantive-me na fundação durante cerca de dezoito anos… ao longo do tempo, fui evoluindo, aprendendo novas técnicas e trabalhando com diversos materiais. Mas ao fim de dezoito anos, eu achei que aquele projecto que o comendador Castro Alves tinha iniciado, simplesmente estagnara. Sentia a necessidade de dar um salto e, por isso, decidi montar o meu próprio ateliê que, por acaso, também ficou sedeado na freguesia de São Pedro de Bairro. Ora, como eu vivia em Roriz, era obrigado a fazer, todos os dias, quatro viagens de Roriz para Bairro somente para trabalhar. Ainda assim, mantive-me lá dois anos, até surgir a oportunidade de adquirir esta casa em rebordões, restauramo-la, montamos as oficinas e mudamo-nos para cá.

Investir na promoção

Quando principiámos a nossa actividade, passámos por muitas dificuldades. Na altura em que montámos a nossa oficina, tínhamos, apenas, um cliente. Era o nosso primeiro cliente e recordo-me que não tínhamos dinheiro. Mesmo assim, o pouco dinheiro que ganhamos com esse primeiro cliente, investimo-lo totalmente, em Lisboa, na melhor feira de artesanato do país. Ficamos a zero e abdicamos daquele dinheiro para apostar no nosso futuro e, se quer saber, naquela época era bastante dinheiro, cerca de 200 contos. No entanto, foi esse investimento promocional que nos impulsionou e ajudou a dar o salto…. Nos primeiros tempos de actividade, fazíamos sete ou oito feiras por ano, nos maiores pólos habitacionais do país, Vila do Conde, Famalicão, Porto, Lisboa… Mas ao fim de dois anos, chegamos à conclusão que era uma asneira investirmos em tantas feiras e que esse mesmo investimento podia ser feito numa só feira, e que seria muito mais rentável apostar em Lisboa. E porquê Lisboa? Primeiro, porque nós, no norte, tínhamos, entre 350 a 400 coleccionadores que nos compravam peças, já no mercado de Lisboa a nossa média de clientes andaria à volta de 150. Porém quando tomamos a tal iniciativa de fazermos Lisboa, passamos de 350 clientes, no norte, para 200 mas crescemos de 150 clientes, em Lisboa, para 600. E a diferença reside aí. Temos mais facilidade em chegar mais rápido junto dos coleccionadores e do meio artístico em Lisboa. É que lá, contactamos com as pessoas de Lisboa mas também do Alentejo, do Algarve e ainda com clientes de além fronteiras. Todos os directores das feiras, a nível mundial, visitam Lisboa. E nós, ao mostrarmos o nosso trabalho a essas pessoas, temos sempre a possibilidade de divulgarmos aquilo que fazemos e de abrirmos o leque a um maior número de pessoas entendidas.
Além disso, investir em Lisboa abriu-nos as portas para outras formas de divulgação. Começámos a entrar nos livros das melhores edições e das melhores editoras de Portugal relacionadas não só com o artesanato mas também com outras áreas como o religioso, por exemplo. A vantagem é que as pessoas que vêem esses livros e esses catálogos têm sempre uma referência sobre onde comprar e onde visitar e, por usa vez, essas mesmas pessoas vão passando a palavra. Por outro lado, os concursos nacionais mais importantes são realizados na feira de Lisboa. Ora, ao participarmos nela com mais frequência, temos sempre a possibilidade de entrarmos nos concursos e, por acréscimo, de alcançar uma melhor montra para o nosso trabalho. Felizmente, assim que começámos a participar nesses concursos, também começámos a ganhar prémios a nível nacional. E quando isso acontece, somos mais referenciados no meio do coleccionador e há uma maior procura. No meu caso, ao fim de dez anos, ganhar dez prémios, isto traduz-se em referências. O coleccionador quer saber quem é este artesão que ganhou dez prémios em oito anos de concursos. Por isso, hoje, passados estes anos, chegamos à conclusão que investir em Lisboa foi a melhor opção que tomamos até hoje.

DSC_1872Viver para o artesanato

Como eu costumo dizer, vivo para o artesanato e só depois é que vivo do artesanato. Para conseguirmos alcançar este nível, temos que ter em mente que só há uma possibilidade: é trabalhar o maior número de horas possível. Que ninguém pense que com sete ou oito horas diárias de trabalho, em barro ou noutras matéria qualquer, se chega a algum lado. Tem que ser 10, 12, 14 horas por dia, senão nunca mais lá se consegue chegar. E sempre com o objectivo, não de produzir mais, mas de produzir melhor. Porque o coleccionador felizmente, nos dias de hoje, não quer quantidade, quer qualidade e Isso para nós é bom.

Os concursos

Existem várias formas de concorrer aos concursos. Há, por exemplo, o prémio nacional de artesanato a que concorrem cerca de dois mil artesãos de todo o país. Geralmente, é delineado um tema entre todos, com um ano ou dois de antecedência a esse concurso. Quando assim é, fazemos uma preparação da peça que irá participar. No meu caso, idealizo a peça e sou capaz de andar meio ano com ela na cabeça. Consulto muitos livros e estou sempre a ler coisas sobre o tema, procurando informações para desenvolver mais facilmente a ideia que vou, depois, pôr em prática. Depois disso, há um tempo de reflexão, um tempo para esquecer e fico dois, três, quatro meses sem pensar na peça, ao fim desse tempo, volto, então, outra vez aos livros e à literatura, volto a conceber ideias, verificar se aquilo que eu idealizava estava certo ou não, se é preciso corrigir algo ou não, além de haver sempre a possibilidade de criar novas ideias e junta-las às que já tínhamos. Esta fase abrange, mais ou menos, entre meio ano a oito meses. Depois, passamos, finalmente, à fase de execução, e aí a peça já está toda idealizada, é só pegar no barro e começar a construir. Uma vez construída a peça, elaboramos uma memória descritiva da mesma. Normalmente, faço um livro sobre essa memória descritiva e depois envio-a à pré-selecção que é na região norte e onde são seleccionadas oito peças. Seguidamente, essas oito peças vão para a FIL (Feira Internacional de Artesanato), em Lisboa, e onde figuram peças de todas as regiões do país.
Este é um processo que não é fácil se bem que dentre dois mil artesãos, o facto de haver a possibilidade de termos lá as nossas peças, já é uma coisa fenomenal. Aliás, eu costumo dizer que o meu verdadeiro prémio é colocar a minha peça em Lisboa onde 500 mil pessoas entram e vêem o nosso trabalho exposto. Quanto ao resto, se vencermos é maravilhoso mas se isso não acontecer, paciência, ao menos mostramos o trabalho. Além disso, quantas e quantas pessoas de todo o país e de todo o mundo vêm visitar a FIL? Dou-lhe um exemplo: um director de uma feira em Milão que anda há anos a chatear-me para ir a Milão… ou então o director da Feira de Tóquio que chegou à FIL, viu o meu trabalho e queria levar-me para Tóquio. Logicamente, por mais que gostasse, eu não tenho a capacidade de ir para Tóquio mas essa é a melhor forma de promover o nosso trabalho.

As feiras

Participar numa feira envolve sempre três ou quatro meses de preparação. É necessário acertar o espaço que vamos ocupar e mediante esse espaço, delinearmos qual o tipo de expositores que vamos lá colocar. Por outro lado, também precisamos saber que tipo de peças pode ser executado para aquele mercado. Porque a Feira de Lisboa tem um sector de mercado diferente do que se encontra na Feira de Vila do Conde. Em Lisboa há bons coleccionadores e em grande quantidade, já em Vila de Conde há muitos coleccionadores na mesma, mas envolve menos promoção e o mercado está orientado para um tipo de peças inferior ao de Lisboa. E nós temos que ter essa noção, de que para mercados distintos, são necessários produtos distintos.
Porque se nós fizermos para a feira de Vila do Conde, o mesmo produto que vendemos em Lisboa, não conseguimos vender em Vila do Conde. Mas se conseguirmos, em Vila do Conde, levar o produto certo para as pessoas que nos visitem, estas pessoas futuramente vão comprar o produto que se vende em Lisboa porque há possibilidade de os trazer à casa e de lhes mostrar mais trabalho. Logicamente, o cliente não tem a possibilidade de conhecer todos os produtos que fazemos em casa mas como está muito perto, dentro de um raio de 50 quilómetros, Porto, Maia, Póvoa, Braga, Viana, Guimarães… pode visitar-nos quando entender.

A região e o imaginário

Nas feiras, a apresentação é igualmente importante, falo da apresentação perante o produto que estamos a vender, a forma como nos dirigimos às pessoas, a forma como as pessoas encaram o nosso trabalho e o modo como ele está exposto. Nesta perspectiva, devemos associar sempre o nosso trabalho à região em que vivemos e pensar no que é que temos para mostrar. Nós não podemos falar única e exclusivamente do nosso trabalho, temos que falar do que nos rodeia, temos que falar dos mosteiros da região, dos licores, dos doces, da arquitectura, da arte, dos espaços verdes, nós temos que envolver tudo isso no nosso trabalho. Isto obriga a que as pessoas, mesmo não visitando, no imaginário delas, compreendam como é que o nosso trabalho se enquadra no meio disto tudo. E quando as pessoas levam um peça nossa para casa, estão a olhar para a nossa peça, estão-se a lembrar de nós e em que meio aquela peça foi executada e onde se insere sendo que depois todo esse meio envolvente é inserido nas suas casas, há toda uma ligação. Temos sempre a possibilidade de incutir no imaginário das pessoas um pouco da nossa região. Conseguimos passar este imaginário para a cabeça delas e desse imaginário fica a curiosidade e eles depois procuram-nos. Vêm, aqui, pessoas de todo o país visitarem-nos à oficina. Procuram esse tal lugar que lhe despertou o imaginário. Então visitam tudo o que nós falamos, os mosteiros, as gastronomias, os licores, a doçaria, e assim ficam a conhecer a região.

Melhores prémios

Todos os prémios são maravilhosos mas se me perguntar se algum prémio nos deu um gozo maior, responderia que, talvez, o primeiro prémio internacional de artesanato que ganhei em Lisboa (FIL), por exemplo, como também o deste ano, em Vila do Conde. Havia dez anos que tinha deixado de participar no concurso nacional de Vila do Conde. No entanto, ao fim de dez anos, volto a Vila do Conde e consigo ganhar o primeiro prémio nacional, quer ser, é uma satisfação fora de série e estranha ao mesmo tempo. E depois deu-me gozo por várias razões, primeiro por rever uma série de coleccionadores que já não via há dez anos e de me lembrar deles, dos filhos, das peças que eles compraram há dez anos atrás. Além disso, porque tive a possibilidade de mostrar esse trabalho a uma série de pessoas novas e porque os coleccionadores anteriores sentiram a evolução do meu trabalho. Finalmente porque Santo Tirso nunca ganhou nada em Vila do Conde se bem que também nunca tinha ganho em Lisboa. De qualquer forma, é importante termos o princípio que nós não somos ninguém, sozinhos, e aproveitarmos a hipótese de darmos algo para o nosso concelho e para o meio em que estamos inseridos.

Baco---DelfimCom qualidade se educa

É necessário dar a conhecer os produtos portugueses mas sou da opinião de que as feiras de artesanato haviam de ser só para profissionais. Uma boa feira deve incluir uma selecção muito rigorosa do produto que se expõe. E nós só defenderemos verdadeiramente o artesanato e os artesãos quando tivermos essa noção de que o artesanato deve primar pelo profissionalismo e pela qualidade. A melhor forma de educar as pessoas é com a qualidade. As pessoas só aprendem se nos tivermos uma feira, por exemplo, com 50 artesãos, bons profissionais, com pessoas que executam um trabalho perfeito, que têm o cuidado de fazer o levantamento do que estão a fazer e que manuseiam o material com excelência. Não vale a pena chamarmos feira de artesanato a tudo o que é feira de pessoas que fazem umas habilidades…

Uma relação de amizade total

Só trabalhamos por encomenda portanto está salvaguardada a futura relação de venda com a pessoa que pretende adquirir peças. No entanto, há uma particularidade: é que nós só vendemos peças depois de conhecermos as pessoas. Antes de passar a comprador, o cliente passa a amigo. As relações que mantemos são de amizade total, e a partir da amizade, nós podemos fazer ou não os negócios mas isso é secundário. O que dizemos aos clientes é: muito bem, você pode gostar do meu trabalho mas a peça que eu vou executar é como se fosse um filho. E eu quero que o senhor depois o leve e o trate bem. E repare, quando a pessoa depois vêm para comprarem peças, sabem a que tipo de pessoa é que o comprou. Como é que nós vivemos, a nossa forma de estar em casa, a relação que temos com o nosso trabalho, o nosso dia-a-dia, o que vestimos, o que comemos, os nossos gostos, o que fazemos nas horas livres, com que pessoas é que nos relacionamos, e os clientes gostam disso. E depois de eles saberem isto tudo, depois de nós os chamarmos cá e dar-lhes a possibilidade de se conhecerem todos uns aos outros, começamos a vender peças. E esta relação é, de facto, espectacular em termos humanos e em termos profissionais.

DSC_1904Um roteiro para os amigos

Outra coisa interessante, é pegar nas pessoas que nos visitam e leva-las aos pontos culturais de interesse da nossa região. Deixamos de trabalhar, paramos por algumas horas ou até dois ou três dias se tiver que ser e levamo-las aos locais que pensamos ser de referência. Levamo-los e explicamos aquilo que lhe estamos a mostrar, a origem dos produtos que estão a consumir, o modo como as pessoas desta região vivem, o porquê de as pessoas se interessarem ou não pelas artes, a forma como a nossa região está mudar o seu estilo. A visita que eu proporciono aos meus amigos e clientes engloba um roteiro gastronómico, arquitectónico, cultural… na minha opinião, todos nós, cidadãos, temos a obrigação de promovermos os produtos da região e quanto mais quem tiver mais facilidade em chegar às outras pessoas fizer isso, melhor é para todos. Não podemos estar à espera das entidades que têm a obrigação de os promover. Temos é que desenvolver um sentido, enquanto seres humanos, de obrigação perante os outros e esse é o espírito que incutimos aos nossos filhos aqui em casa, tudo o que podermos dar aos outros também nos vai realizar. Neste sentido, a melhor forma de vermos o nosso trabalho reconhecido são os grupos de amigos que vamos juntando aos que já temos. E o mais engraçado é que são aqueles que já temos que nos trazem novos amigos…

Em casa não há distinções

Os nossos clientes atravessam todo a estrutura social. São cidadãos absolutamente normais, que desempenham a suas profissões, desde operários, por exemplo, até ministros e doutores, ou seja, abrangemos todas as áreas. A nossa forma de estar na vida, a nossa forma de ser perante os outros dá perfeitamente para enquadra-los uns com os outros. Sendo assim, aqui em nossa casa não existem classes sociais. São todos iguais, todos senhores e senhoras… E isso é muito importante. Como costumo dizer, nós temos peças para todos os preços, desde 70 a 70 mil euros.

Algumas peças, nós não vendemos

Algumas peças, nós não vendemos porque nos afeiçoamos demasiado a elas – são peças que executamos com um certo espírito, com uma forma de pensar diferente, com técnicas diferentes e que nos dizem algo. Envolvem as nossas vivencias e convívios passados com certas pessoas, a forma delas olhar, a forma delas falar, a forma delas reagir, formas de estar e viver distintas. Essa forma de expressão humana é depois retratada no barro. Como sabe, quem anda metido no mundo da arte, normalmente, tem uma forma muito própria de ver as coisas. E uma das coisas a que ninguém liga e à qual dou muita importância é, por exemplo, nas feiras semanais ou nas romarias, a forma como as pessoas mais velhas vestem, a forma como olham para a banda de música ou como se comportam nas procissões, perguntarmo-nos porque é que veste um casaco verde e umas calças lilás? Porque é que a mulher vem de lenço azul e uma camisola cor-de-rosa? E, hoje em dia, muitos podem olhar e dizer: que disparate, que falta de combinação. Mas não é nada disso, é o lado mais puro e espectacular do ser humano, é quando este faz as coisas genuinamente, é a sua forma de viver, é a sua forma de estar, é esse andar feliz, aqueles sorrisos rasgados, aqueles olhares reluzentes… Isso para nós, é fabuloso.

A Custódia

Se me perguntar qual é a peça que considero mais gratificante, devo dizer-lhe que gosto de todas mas há uma que me fascina mais um bocado, é a custódia que eu executei no âmbito da FIL e com a qual ganhei o prémio, em 2005. Esta peça mede mais ou menos um metro de altura e se quer saber, demorei cerca de dois anos para idealiza-la e completar os estudos necessários. O tema do concurso era muito interessante: o ouro da terra e o sonho das mãos. Para o ouro da terra, fui às raízes da nossa região, desde a forma como as pessoas trabalhavam aqui na nossa zona, os campos, os pipos, as cestarias, a latoaria, a própria forma de modelar o barro, no fundo, eu recuei 50 ou 100 anos na vida das pessoas. Depois abordei uma característica muito própria da nossa região, o milho e as vindimas e retratei esses dois ciclos, o ciclo do pão, desde o semear até estar na mesa e o ciclo do vinho desde o plantar das uvas até nós o bebermos e, isto tudo, pormenorizado em cerca de 85 ou 86 figuras de três, quatro centímetros. A juntar a todas essas tradições antigas, representei igualmente a forma como as várias regiões do nosso país vestiam e trajavam. Tratou-se de um processo muito complexo pelo que demorei três meses a executar a peça, três meses de domingo a domingo, das 9 da manhã até a meia-noite. Durante este tempo de criação, encetei um autêntico processo de revivalismo, sentia-me na pele do meu avô ou do meu tetravô, tal como se estivesse inserido no ambiente da época. O engraçado é que depois de estar o trabalho pronto, parece que no meu dia-a-dia ainda faço parte disso e, por vezes, sinto dificuldades em separar o que eram os dias de há cem anos atrás e os dias de hoje. Sinto essa ligação entre uma época e outra. De facto, vivo demasiado este género de trabalho e esta peça marcar-me-á até ao fim dos meus dias.

DSC_1905Depois do trabalho

Esta peça foi vencedora do Prémio Nacional de Vila do Conde. Retrata uma época em que as pessoas iam para os campos, uma época em que não havia máquinas, em que o milho e as uvas eram tratados à mão. Depois de executarem o trabalho no campo, as pessoas convivam todas, sentavam-se, conversavam, discutiam, riam e confraternizavam. Além disso, depois do trabalho, estavam cansadas e, por isso, comiam e bebiam. A minha peça refere-se a isso, à alegria que as pessoas tinham depois de executarem o trabalho, quando elas regressavam à casa do senhorio onde eram feitas grandes merendas. Contém à volta de 200 figuras e pretende transmitir esse espírito e forma de estar. Hoje, usa-se maquinaria para trabalhar no campo mas não há esse convívio, o vinho tinto, o “pintar a língua” como lhe chamavam, o “mostra lá o teu rim a ver se é melhor que o meu”, as pataniscas, o peixe frito, o pão cozido na casa do senhorio, aquela abertura que o senhorio ou o dono do campo tinha perante aqueles trabalhadores. O que me fascina é a humanização que havia naquela época.

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O artesão Delfim Manuel pode ser contactado através do nº de telefone: 252 850 456 ou nas instalações do seu ateliê: Rua do Loureiro, nº 8, 4795-211 Rebordões, Santo Tirso.

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Café com… Ivo Martins

Café com… Ivo Martins

cafecom_0Para esta quinzena, o STH “tomou café” com Ivo Martins. Este tirsense integrou, há cerca de 14 anos a equipa organizadora do afamado Guimarães Jazz. Ao longo de anos de trabalho e persistência, a dedicação deste apaixonado por música floresceu: hoje, o Guimarães Jazz é internacionalmente referenciado como um evento de excelência e por onde já passaram alguns dos maiores nomes da história do Jazz. Assim que convidado pelo STH, Ivo Martins acedeu prontamente em conceder a entrevista, solicitando, no entanto, que a mesma fosse realizada por escrito (correio electrónico) e apenas focalizada no Guimarães Jazz. Como é natural, o STH concordou e o resultado está a vista…

ivomartinsA entrada e participação no Guimarães Jazz

Em 1995 fui contactado por um amigo que conhecia a minha ligação à música, para estar presente numa reunião com um elemento da comissão organizadora do Guimarães Jazz. Nesse encontro fui convidado a integrar a organização do festival. A partir daí fomos concebendo e definindo o perfil para um programa de um festival de jazz capaz de se renovar permanentemente e que, ao mesmo tempo, pudesse ir adquirindo uma identidade própria, susceptível de destaque junto dos demais eventos do género que haveriam mais tarde de aparecer em Portugal.
Existem alguns pontos interessantes que ajudam a perceber como estas coisas foram acontecendo. No começo de cada ano, quando iniciávamos a planificação do programa do Guimarães Jazz, surgiam-nos sempre as mesmas perguntas: o que é actualmente um festival de jazz? Haverá um método específico que permita, desde logo, situar esta música e realizar através deste evento um processo identificador, seguro e universal de divulgação?
No meio da confusão causada por estas dúvidas, detectavam-se inúmeras respostas curiosas e percebia-se que cada opção ou escolha de músicos ou músicas deveria saber distanciar-se dos interesses em jogo, não podendo ficar enredada na tentação de atrair atenções sobre acontecimentos não representativos de problemas reais acerca da definição do jazz. Um festival tem de ser um espaço exclusivo e liberto de compromissos, capaz de permitir a compreensão e a fruição livre e individual do público interessado. A parte mais importante das respostas foi-nos dada pelos concertos – a execução dos músicos e a audição do público – não havendo interesse da nossa parte em transformar o acontecimento num fórum de discussão a propósito das interrogações e das dúvidas sobre os limites do jazz. Considera-se que cada programa é tanto mais rico quanto mais é capaz de permitir um maior número de leituras paralelas e que o alinhamento deve ser equilibrado nos géneros, fomentando diversas análises individuais e incentivando a movimentação das audiências na direcção dos concertos. Tentou-se assim incrementar, através da programação do festival, um leque alargado de estímulos e de insinuações resultantes das várias propostas apresentadas pelo programa. A variedade de estilos e de géneros do jazz presentes no festival e as múltiplas associações de ideias suscitadas pelo alinhamento permitiram criar uma atmosfera de abertura e de divulgação sempre consolidada através dos concertos apresentados que eram acompanhados de uma narrativa explicativa e justificativa da sua escolha.

cartaz_jazz06Guimarães Jazz, uma referência internacional

Actualmente o festival é um bloco de acontecimentos, formado por um importante conjunto de momentos dispostos nos seguintes pontos essenciais:
A) Os Grandes concertos
B) As Jam’s Sessions
C) As Oficinas de Jazz
D) O Projecto Guimarães Jazz/TOAP – “Tone of a Pitch”
E) O Projecto de Big Band – Guimarães Jazz/ESMAE – Porto
A) Os grandes concertos têm lugar no auditório principal do Centro Cultural Vila Flor e neles são apresentados músicos fundamentais da história do jazz ou músicos que, sendo ainda jovens, são talentos promissores em ascensão.
B) As Jam’s Sessions são concertos fora de horas que se estendem pela noite dentro, cumprindo um importante papel na informação e na divulgação, ao revelarem a informalidade do jazz e da improvisação e ao permitir que o público menos conhecedor desta música a possa ouvir pela primeira vez, num ambiente mais directo e próximo dos músicos. A qualidade dos instrumentistas tem elevado de maneira evidente o nível das mesmas, permitindo contactos, encontros e experiências entre músicos e audiências cada vez mais interessadas por este género de abordagem artística. As Jam’s Sessions assumem-se como uma das várias faces do Guimarães Jazz, incentivando o divertimento e a possibilidade de se reunirem pessoas e músicos, sendo encontros musicais depois dos concertos no grande auditório e traduzindo-se em momentos espontâneos de improvisação, o que confere ao festival instantes únicos de festa e de ritualização colectiva.
C) As Oficinas de Jazz assim como as Jam’s Sessions são dirigidas pelos músicos residentes que se deslocam propositadamente dos Estados Unidos, fixando-se em Guimarães durante duas semanas e são responsáveis pela organização de várias actividades formativas destinadas a jovens instrumentistas. Nota-se um interesse crescente por parte de muitos jovens músicos vindos de diversos pontos do país e do norte de Espanha (actualmente são mais de 60 os que todos os anos se associam ao evento) para participarem nestes seminários.cassandra-wilson_credit-jenny-bagert
D) Em 2006 iniciámos um novo projecto de intercâmbio artístico entre o Guimarães Jazz e os músicos associados à TOAP (Tone of a Pitch), uma marca portuguesa independente, gerida por músicos que desenvolveram um importante trabalho na divulgação do jazz criado por instrumentistas portugueses. Estabelecemos com esta etiqueta discográfica um acordo de colaboração no qual ficou determinado para cada edição do Guimarães Jazz, a preparação de um projecto artístico e inovador exclusivo do festival que envolvesse músicos portugueses e estrangeiros. Com este projecto pretende-se preparar para cada edição do Guimarães Jazz um concerto exclusivo que seja o resultado dessa colaboração artística. O resultado sonoro desta experiência será sempre registado e lançado em CD no festival do ano seguinte. O objectivo deste projecto é permitir ao Guimarães Jazz a materialização da sua história, através da possibilidade de transformar em documento áudio alguns dos seus concertos e deste modo o festival ver produzidas as suas próprias gravações.
E) Nos festivais realizados entre 1998 e 2003 desenvolveram-se vários projectos de Big Band, que incluíam uma orquestra formada por músicos portugueses e europeus. Este grupo alargado de instrumentistas preparava durante três dias de intensivos ensaios um programa musical delineado exclusivamente para o Festival. A orquestra era dirigida por um compositor/director convidado, internacionalmente reconhecido. Esta experiência foi muito útil porque permitiu aos vários elementos da organização do Guimarães Jazz a possibilidade de prepararem várias produções para o acontecimento, podendo testar a sua capacidade de resposta perante os projectos desenvolvidos e a competência da sua concretização no conjunto das rotinas necessárias à produção de espectáculos. Em 2005 sentiu-se a necessidade de fazer algumas mudanças no processo e, mantendo a mesma ideia, inicia-se a preparação de um novo projecto para Big Band, utilizando-se então a Big Band da ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo). Esta orquestra, composta por jovens músicos em formação, cumpre uma intensa semana de ensaios, na preparação de um concerto integrado no programa do Festival.

“Grandes nomes” do Guimarães Jazz

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O Guimarães Jazz foi-se autonomizando como organização, criou os seus próprios contactos e não depende de nenhum agente ou estrutura de venda de concertos. Tem uma completa independência em relação ao meio e cada opção ou escolha de músicos programados está afastada dos interesses comerciais. O festival conhece e contacta directamente os músicos ou os seus agentes e evita ficar enredado nas atenções sobre acontecimentos que não sejam representativos dos valores artísticos que pratica. Actualmente as pessoas podem estabelecer contactos com todas as partes do mundo porque possuem ferramentas poderosas de comunicação para se fazerem ouvir. Esta situação permitiu consolidar ainda mais a nossa forma de organizar o festival. A Internet é um meio fundamental de contacto através do qual se estabelecem ligações que projectam uma imagem identificativa do Guimarães Jazz. A experiência faz com que, de uma forma optimista, tenhamos acesso a todo o tipo de músicos. A possibilidade desses músicos fazerem parte do programa do festival é uma mera questão de oportunidade e de orçamento. A estruturação de um programa é um trabalho de persistência que obriga a procurar e a inventar soluções de forma a conseguir atingir a ideia inicial. Insistimos com os músicos que queremos programar para conseguirmos a sua presença, por vezes andamos anos atrás deles e a manifestação do nosso interesse dá origem a uma digressão europeia.

O facto de o Guimarães Jazz ser um festival planeado sem o recurso a um formato estético específico, sendo por isso muito mais flexível nas suas possibilidades de construção, facilita a criação de um programa equilibrado. Somos obrigados a ultrapassar a dificuldade de se ter fixado para o mês de Novembro de cada ano a realização dos concertos e por isso ser-se obrigado a procurar os músicos que se encontrem em digressão na Europa nessa época e que estejam disponíveis para tocar nas datas previstas para o festival. A possibilidade de gerir estas condicionantes e a experiência adquirida fez com que se conseguisse trazer ao Guimarães Jazz uma parte substancial dos músicos de jazz fundamentais dos finais do século XX.
Seria um grave contra-senso e uma enorme perda de oportunidade histórica que uma cidade com as características de Guimarães não tivesse no seu festival as principais figuras desta música. Foi-se desenvolvendo um formato de programação para que a cidade construa a sua própria história no contexto do jazz, de forma a ser considerada uma referência nacional e internacional. Pretende-se mostrar o jazz na sua globalidade, uma das músicas mais interessantes surgidas durante o século XX e realizar um conjunto de acontecimentos relevantes, em duas semanas de intensa actividade. Para se ter uma ideia da qualidade de alguns dos músicos que passaram pelo festival, citem-se os seguintes nomes: Kenny Barron, Ran Blake, Steve Lacy e Roswell Rudd Quartet, Alex von Schlippenbach, Maria Schneider, Anthony Braxton, Brad Mehldau, Sheila Jordan, Betty Carter, Peter Erskine, Kenny Wheeler, Cecil Taylor, Ron Cater, Dewey Redman, Bob Brookmeyer, Dave Liebman, John Scofield, Wayne Shorter, Abdullah Ibrahim, Charlie Haden Liberation Music Orchestra featuring Carla Bley, Pharoah Sanders, Jan Garbarek, Ahmad Jamal, Steve Coleman entre outros.

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“Consolidar um projecto com identidade”

É tão fácil quão difícil montar uma estrutura como o Guimarães Jazz. São muitas as condicionantes que determinam as escolhas e é sempre difícil conciliar as agendas dos músicos com o calendário do festival. O programa é previamente estabelecido com um ano de antecedência e, posteriormente, vão-se fazendo os contactos. É necessário ter-se conhecimento das digressões europeias e da actividade dos músicos para se concretizar a totalidade das opções iniciais e só assim o festival mantém coerência. A concepção do festival precisa de tempo e de criatividade. É sabido que todas as coisas têm de ser muito rápidas a atingir resultados e sucesso. O problema de qualquer organização é não ter tempo para crescer devagar porque crescer é uma forma lenta e consolidada de sedimentação de conhecimentos e para isso acontecer naturalmente o tempo é um elemento essencial – tempo para arriscar e corrigir, para se pensar e achar o meio mais apropriado de pôr em prática as ideias. Felizmente o Guimarães Jazz teve tempo necessário para pensar e consolidar um projecto com identidade, mantendo uma trajectória de ascensão durante todos estes anos. É de facto uma situação rara num mundo onde tudo se altera a grande velocidade.

Formar público

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O festival foi sendo desenvolvido por um conjunto de pessoas com diversos interesses e formações. Começou por ser uma parceria entre a Câmara Municipal de Guimarães e a Associação Cultural “Convívio”, uma entidade com grandes tradições na divulgação cultural vimaranense. A inauguração do Centro Cultural Vila Flor permitiu um grande salto qualitativo, tendo o Guimarães Jazz conseguido praticamente duplicar o seu público porque passou a ser possível oferecer a todos os que se deslocavam para assistir aos concertos excelentes condições de bem-estar. O acesso a um conjunto de meios técnicos sofisticados na produção dos espectáculos também contribuiu para a melhoria verificada. Pode dizer-se que mais de 70% da audiência do festival é proveniente de zonas afastadas de Guimarães. As pessoas deslocam-se de todo o país, tendo passado pelo grande auditório do Centro Cultural Vila Flor mais de 4.500 pessoas por festival. Se juntarmos a este número todos os indivíduos que assistem às Jam’s Sessions e aos demais acontecimentos paralelos, é possível calcular que anualmente passam pelo Guimarães Jazz pelo menos 6.000 pessoas. O público nunca foi a grande preocupação do festival porque ele foi sempre aparecendo em todos os concertos. Ao longo do tempo concluiu-se que o principal objectivo seria a divulgação do jazz, oferecendo às pessoas a escolha entre diversas actividades que vão desde os concertos até às Jam’s Sessions. Tentou-se evitar estados de grande seriedade intelectual à volta desta música. Naturalmente, na origem desta construção está o prazer de fazer as coisas bem feitas, assim como o rigor profissional daquilo que se realiza. As ideias foram trabalhadas até às últimas consequências e tivemos sempre o desejo de fazer um festival capaz de crescer e de nos arrastar no seu crescimento. Não pretendemos dirigir ninguém, nem impor nada às pessoas. Limitamo-nos a pôr à consideração dos que gostam do jazz e dos que querem contactar pela primeira vez com esta música, um conjunto de concertos de vários géneros passíveis de dar prazer e gozo na sua fruição. É evidente que ficamos satisfeitos quando os resultados alcançados são bons e observamos, por vezes com alguma surpresa, a forma atenta como as pessoas digerem as informações disponibilizadas no decorrer do festival. Neste sentido o que apreciamos é a possibilidade de vermos a reacção das pessoas aos espectáculos. Descrever o Guimarães Jazz é uma narrativa com muitas lacunas na medida em que é impossível transmitir a riqueza das experiências vividas por quem participa naqueles momentos. Assim, a melhor maneira de perceber o festival é vivê-lo por dentro, é sentir tudo o que nele se vai passando, seja no decorrer dos concertos, seja nas várias actividades paralelas que preenchem os dez dias do Guimarães Jazz.

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Café com… João Correia

Café com… João Correia

O santo tirso hoje tomou café com João Correia, no badalado Café Mónica, em Santo Tirso. Desportista de alta competição, João Correia arrecadou duas medalhas de prata, nos Campeonatos da Europa de atletismo paraolímpico em 2001 e 2005, as únicas do espólio português. Actualmente, João Correia é o presidente da Fundação “Nunca Desistas”. Este organismo de intervenção social actua através do desporto, junto de pessoas com mobilidade reduzida. As linhas que se seguem relatam uma história de coragem e dedicação astronómicas. Eis as palavras de quem nunca deixou de acreditar.
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Reaprender a viver
Em 1985, com dois anos e meio, fui atropelado aqui na cidade de Santo Tirso. Na altura, estava um dia ventoso e levava um boné na cabeça. A ventania levou o boné e, num acto irreflectido como é próprio nas crianças, fui a correr atrás a ver se o apanhava… A partir daí, tive que reaprender a viver. Claro que, por ser tão novo, nunca senti tanto aquela diferença entre o antes e o depois. Desde cedo, fui para Alcoitão, em Lisboa, onde passei vários anos e aprendi bastante. Quando regressei estava preparado para enfrentar a sociedade e todo esse processo de adaptação que às vezes é um bocadinho cruel.

Desporto adaptado
Tive um percurso escolar perfeitamente normal. Por volta dos 12 anos, decidi participar numa meia maratona, em Santo Tirso. Foi o meu primeiro contacto com desporto adaptado e onde vi pessoas em cadeiras de rodas, na mesma situação de que eu. Participei na prova com uma cadeira normal, o que não me impediu de estar ali na linha de partida junto aos outros colegas. O percurso era dar a volta à cidade e depois uma volta maior de 20 km´s. Essa primeira volta, dei-a enquanto os outros concluíram os seus 21 km´s mas no final ficou o interesse em saber mais sobre a modalidade. Tomei conhecimento da existência de um clube em Braga, o APD (Associação Portuguesa de Deficientes). Inscrevi-me e ainda hoje trabalho com o clube, quer para efectuar os meus treinos quer para ajudar e orientar quem está a dar os seus primeiros passos. Nessa área, o maior problema do nosso país advém da carência de material que simplesmente não existe ou caso exista, não é adaptado. É como calçar 40 e correr com sapatilhas de 45. A cadeira tem de ser ajustada ao atleta e raramente é transmissível se não houver uma patologia muito idêntica… e pronto comecei no basquete, em 94, por ser um desporto colectivo que implica interacção e para o qual havia cadeiras. Depois em 96, chegou-me às mãos uma cadeira de atletismo, o que me permitiu tentar uma prestação mais digna porque até a data continuei sempre a praticar com cadeiras normais. A cadeira vinha dos Estados Unidos e pertencia a um atleta português que já não a utilizava. Apostei em treinar e aos poucos, percebi que podia vingar no atletismo. Decidi dar o máximo.

Heinz Frei
Foi sempre a pista que me marcou. Entrei na minha primeira prova de pista, em 2000, em Lisboa. O objectivo passava por bater os tempos mínimos de acesso ao campeonato do mundo de juniores. Fiquei a poucos centésimos de o conseguir e, por isso, senti-me incentivado para trabalhar mais. No ano seguinte, esteve cá o maior atleta de sempre do desporto paraolímpico – Heinz Frei – para a meia maratona de Lisboa, na qual também entrei. Heinz Frei trabalha muito com recém-paraplégicos e então ele tem um olho especial para detectar atletas dotados. Durante a prova notou alguma coisa em mim. No final ele veio ter comigo e perguntou-me porque é que ninguém apostava em dar-me uma cadeira melhor porque com aquele material nunca iria mais longe. Mas essa é a realidade que temos. Ou se tem dinheiro ou então não se sobe ao patamar seguinte. Disse-me que ia mandar uma das suas cadeiras de competição para Portugal. Antes disso, convidou-me a experimentar a sua cadeira. Aquilo foi quase como a história do sapato de Cinderela. Encaixou perfeitamente. Passado uns tempos, recebi a cadeira e, por surpresa minha, constatei que aquela era a cadeira com que ele tinha, no ano anterior, batido o record do mundo de maratona. O record ainda é dele. Além de ser extremamente motivador, senti que aquilo era quase como que uma passagem de testemunho.

4As medalhas
Um ano depois de receber a cadeira, consegui os mínimos para o campeonato da Europa, na Holanda. Cheguei lá e ganhei a primeira medalha de prata para o paraatletismo português. Essa prova abriu-me muitas portas, inclusive a nível de reconhecimento pelo trabalho que foi feito. É um pouco ingrato porque o atleta, não é quando está lá no alto que precisa de umas palmadas nas costas, é quando está em baixo e requer apoio para chegar lá cima. Todo o meu trabalho deve-se à minha família, a um atleta suíço e aos colegas que acreditaram em mim. Depois da vitória, surgiram algumas empresas que quiseram estar ligadas ao meu percurso desportivo. Houve muitos treinos, provas e competições no estrangeiro. Acabei, entretanto, por receber uma outra cadeira do meu actual patrocinador. Claro que o material vai sofrendo alterações, são-lhe aplicados novas ligas, novos elementos que minimizam o peso, ajustando a aerodinâmica da cadeira e isso reflecte-se na melhoria de marcas. Em 2005, arrecadei a minha segunda medalha de prata no Campeonato da Europa, desta vez na Finlândia. Ao todo foram duas medalhas, as únicas do paraatletismo português.

As lesões
Três meses após o campeonato, senti os primeiros sintomas de uma lesão na cervical e que me levou para o bloco operatório em Janeiro de 2006. Efectuou-se uma fixação com titânio para prender o crânio à cervical, o que mudou drasticamente o caminho que desejava seguir. Estava revoltado. A lesão foi contraída durante os treinos. Como qualquer atleta estamos sujeitos a cargas brutas e fortes, principalmente no pescoço e nos ombros. Concluído o processo de recuperação e fisioterapia, votei a treinar e sentia-me bem. Passado um mês de ter recebido alta clínica, apurei-me para o mundial de 2006. Fomos à Holanda, outra vez, mas sem grandes ambições. Para mim, estar ali já era uma grande vitória. No entanto, a prova acabou por se revelar um autêntico pesadelo. Durante o campeonato, a zona em que recebi intervenção cirúrgica cedeu, havia uma ruptura que estava a provocar nova lesão no cordão medular e isso dava-me uma tremenda fraqueza. A equipa médica achava que aquilo era stress de competição. Nos 100 metros fiz apenas 26 segundos. Normalmente conseguia sempre 18 /19 segundos. Sabia que algo não estava bem mas os médicos insistiam que eram transtornos psicológicos. Nos 200 metros, recusei-me a correr porque não conseguia mexer os braços. De volta a Portugal, contactei a equipa que me tinha tratado anteriormente. Quando me fizeram os exames, deitaram as mãos à cabeça… Pela dimensão da lesão, durante o campeonato, podia ter ficado totalmente imobilizado. Fui submetido a uma operação de grande risco, nunca antes realizada em nosso país e tudo correu bem. Felizmente tive quem me apoiasse. A operação ficava por três mil contos mas a Federação virou-me as costas. Apesar de a lesão ter sido contraída em pleno campeonato, de ter havido uma falha médica gravíssima, a federação não me concedeu nem um cêntimo de ajuda, nem uma palavra, nada. Ignoraram-me.

jc_homeFundação “Nunca Desistas”
Tendo em contas as dificuldades que eu passei, criei uma fundação baptizada com o meu lema: “nunca desistas”. O que se pretende é dar apoio ao atleta paraolímpico, não só quando atinge um patamar elevado, mas durante a alta competição e na sua formação. Queremos reunir as condições para que um atleta possa vingar no desporto paraolímpico e dar-lhe a oportunidade de atingir os seus sonhos. Começamos, este ano, a funcionar e já conseguimos ajudar um jovem de Famalicão a conseguir a sua primeira cadeira de atletismo. Também queremos trabalhar junto das freguesias e fazer o levantamento das necessidades de quem quer que tenha transtornos de mobilidade reduzida para que o nosso grupo de trabalho intervenha ou o encaminhe para as instituições adequadas. É um projecto a longo prazo mas dá-nos um gozo particular ver os sorrisos que se conseguem proporcionar com o nosso trabalho, dentro do espírito daquilo que foi feito comigo há anos atrás e tirar as pessoas de casa, ajuda-las a desempenhar um papel mais activo na sociedade. No próximo ano, gostaríamos de abrir um pólo de reabilitação, em Braga, para acolher todas essas pessoas. O plano material é o maior obstáculo porque cada atleta que ajudamos envolve despesas na ordem dos 4000 euros e a actual situação económica do país não ajuda. Todos os donativos e apoios são bem-vindos.

Santo Tirso – assim é complicado…
O meu projecto inicial era sediar a fundação, aqui em Santo Tirso. Bastava um edifício ou um terreno que pudesse servir de garante financeiro. A resposta do Presidente da Câmara foi que havia projectos mais aliciantes ou com mais retorno para a cidade. Uma pessoa tem que respeitar aquilo que foi dito, não é? Não desisti da ideia e a próxima porta a que bati foi a Câmara Municipal de Braga onde, desde a primeira palavra, o meu projecto foi bem acolhido.
Como sou da terra, fiquei um pouco magoado por ter que me desmobilizar para concretizar aquilo que sonhei fazer cá. Julgo que qualquer cidade receberia esta ideia com agrado. Qual é a câmara que não tem um bocado de terra ou um edifício inutilizado para sediar uma fundação? Há uma cooperativa de apoio aos cidadãos com deficiência, em Santo Tirso, mas que quase ninguém conhece. Foram lá gastos 300 mil euros mas aquilo não tem eficácia nenhuma. Não há retorno. No campo desportivo estão a decorrer as primeiras jornadas de desporto adaptado. É incrível: vem tantas equipas do norte – Braga, Barcelos, Paredes, Chaves, por exemplo, mas de cá não temos um único atleta a assistir ou a participar. É preciso criar as condições de integração, trazer as pessoas com deficiências para a rua e oferecer-lhes soluções e alternativas, optimizar a sociedade para recebê-los. Basta olharmos para a Câmara. Desde 97 que a lei exige que todos os edifícios públicos tem de ter entrada e acessos para pessoas com mobilidade reduzida. Chega-se ali à Câmara e, sim senhor, há acesso aos primeiros degraus. E depois? Chega-se ao átrio e não se faz mais nada. Não há acesso a nenhuma área do edifício. Se eu marcar uma audiência com o presidente, por exemplo, ele tem que me receber cá fora. Estamos a falar de uma câmara, a entidade que deve regular a fiscalização. Temos também o caso das Finanças, do Instituto de Emprego, da Segurança Social. Assim é complicado. A lei existe desde 97 mas aplica-la? Não aplicam.

5Direito à igualdade
O desporto paraolímpico é um direito subjacente à igualdade mas isso é treta. Uma pessoa que precisa de uma cadeira quase tem de pedir dinheiro porta a porta para fazer aquilo a que qualquer pessoa tem acesso – praticar desporto. Não é à toa que em Portugal existem um milhão de pessoas com deficiência e só 0,1% é que pratica desporto. Além disto, quantas pessoas, com deficiência, é que se vêem nas ruas ou até num centro comercial? Não há integração. Trata-se de um indicador de qualidade de vida no qual todos os países desenvolvidos estão a apostar. Há uma semana, tive uma conversa com o Secretário de Estado e ele não têm essa noção. Pediu-me para, futuramente, falarmos sobre isso com mais calma. Toda a gente sabe que, em termos monetários, as pessoas com deficiência são consideradas um fardo para a economia portuguesa. E maneiras de contornar isso? A meu ver não é mantê-las em casa numa vida sedentária, completamente frustrada e de integração nula. Esta situação não traz benefícios. Antes de tudo, a mudança de mentalidades passa por, dia-a-dia, demonstrarmos o que somos capazes de fazer.

Para mais informações, visite:

www.joaocorreia.com

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