Esta quinzena, o STH tomou café com o artesão Delfim Manuel, na Casa da Eira, em Rebordões. Este espantoso e singular artista da cerâmica somou, ao longo de dez de actividade, um impressionante conjunto de dez prémios de artesanato. Entre estes, constam o prestigiado prémio da Feira Internacional de Lisboa (FIL) e o prémio da Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde que arrecadou, em Agosto, com a obra “Depois do trabalho”. Numa conversa improvisada, o artesão pronunciou-se sobre os desafios inerentes ao universo da modelação. Como o próprio afirma: “Só ficarei satisfeito quando os bonecos falarem”.

Primeiros Passos
Comecei a trabalhar com cerâmica por volta dos dez anos de idade, na Fundação Castro Alves, em Bairro. Andava na escola de música da mesma fundação e, na altura, o comendador Castro Alves lembrou-se de montar uma escola de cerâmica que veio a abrir no dia dez de Junho de 1979. Conjuntamente com 20 miúdos, ingressei no curso. De manhã, ia para a escola em Famalicão e durante a tarde estudava cerâmica na Fundação. Ao fim de dois anos, não quis continuar a estudar e dediquei-me, a tempo inteiro, à cerâmica. Ao todo, mantive-me na fundação durante cerca de dezoito anos… ao longo do tempo, fui evoluindo, aprendendo novas técnicas e trabalhando com diversos materiais. Mas ao fim de dezoito anos, eu achei que aquele projecto que o comendador Castro Alves tinha iniciado, simplesmente estagnara. Sentia a necessidade de dar um salto e, por isso, decidi montar o meu próprio ateliê que, por acaso, também ficou sedeado na freguesia de São Pedro de Bairro. Ora, como eu vivia em Roriz, era obrigado a fazer, todos os dias, quatro viagens de Roriz para Bairro somente para trabalhar. Ainda assim, mantive-me lá dois anos, até surgir a oportunidade de adquirir esta casa em rebordões, restauramo-la, montamos as oficinas e mudamo-nos para cá.
Investir na promoção
Quando principiámos a nossa actividade, passámos por muitas dificuldades. Na altura em que montámos a nossa oficina, tínhamos, apenas, um cliente. Era o nosso primeiro cliente e recordo-me que não tínhamos dinheiro. Mesmo assim, o pouco dinheiro que ganhamos com esse primeiro cliente, investimo-lo totalmente, em Lisboa, na melhor feira de artesanato do país. Ficamos a zero e abdicamos daquele dinheiro para apostar no nosso futuro e, se quer saber, naquela época era bastante dinheiro, cerca de 200 contos. No entanto, foi esse investimento promocional que nos impulsionou e ajudou a dar o salto…. Nos primeiros tempos de actividade, fazíamos sete ou oito feiras por ano, nos maiores pólos habitacionais do país, Vila do Conde, Famalicão, Porto, Lisboa… Mas ao fim de dois anos, chegamos à conclusão que era uma asneira investirmos em tantas feiras e que esse mesmo investimento podia ser feito numa só feira, e que seria muito mais rentável apostar em Lisboa. E porquê Lisboa? Primeiro, porque nós, no norte, tínhamos, entre 350 a 400 coleccionadores que nos compravam peças, já no mercado de Lisboa a nossa média de clientes andaria à volta de 150. Porém quando tomamos a tal iniciativa de fazermos Lisboa, passamos de 350 clientes, no norte, para 200 mas crescemos de 150 clientes, em Lisboa, para 600. E a diferença reside aí. Temos mais facilidade em chegar mais rápido junto dos coleccionadores e do meio artístico em Lisboa. É que lá, contactamos com as pessoas de Lisboa mas também do Alentejo, do Algarve e ainda com clientes de além fronteiras. Todos os directores das feiras, a nível mundial, visitam Lisboa. E nós, ao mostrarmos o nosso trabalho a essas pessoas, temos sempre a possibilidade de divulgarmos aquilo que fazemos e de abrirmos o leque a um maior número de pessoas entendidas.
Além disso, investir em Lisboa abriu-nos as portas para outras formas de divulgação. Começámos a entrar nos livros das melhores edições e das melhores editoras de Portugal relacionadas não só com o artesanato mas também com outras áreas como o religioso, por exemplo. A vantagem é que as pessoas que vêem esses livros e esses catálogos têm sempre uma referência sobre onde comprar e onde visitar e, por usa vez, essas mesmas pessoas vão passando a palavra. Por outro lado, os concursos nacionais mais importantes são realizados na feira de Lisboa. Ora, ao participarmos nela com mais frequência, temos sempre a possibilidade de entrarmos nos concursos e, por acréscimo, de alcançar uma melhor montra para o nosso trabalho. Felizmente, assim que começámos a participar nesses concursos, também começámos a ganhar prémios a nível nacional. E quando isso acontece, somos mais referenciados no meio do coleccionador e há uma maior procura. No meu caso, ao fim de dez anos, ganhar dez prémios, isto traduz-se em referências. O coleccionador quer saber quem é este artesão que ganhou dez prémios em oito anos de concursos. Por isso, hoje, passados estes anos, chegamos à conclusão que investir em Lisboa foi a melhor opção que tomamos até hoje.
Viver para o artesanato
Como eu costumo dizer, vivo para o artesanato e só depois é que vivo do artesanato. Para conseguirmos alcançar este nível, temos que ter em mente que só há uma possibilidade: é trabalhar o maior número de horas possível. Que ninguém pense que com sete ou oito horas diárias de trabalho, em barro ou noutras matéria qualquer, se chega a algum lado. Tem que ser 10, 12, 14 horas por dia, senão nunca mais lá se consegue chegar. E sempre com o objectivo, não de produzir mais, mas de produzir melhor. Porque o coleccionador felizmente, nos dias de hoje, não quer quantidade, quer qualidade e Isso para nós é bom.
Os concursos
Existem várias formas de concorrer aos concursos. Há, por exemplo, o prémio nacional de artesanato a que concorrem cerca de dois mil artesãos de todo o país. Geralmente, é delineado um tema entre todos, com um ano ou dois de antecedência a esse concurso. Quando assim é, fazemos uma preparação da peça que irá participar. No meu caso, idealizo a peça e sou capaz de andar meio ano com ela na cabeça. Consulto muitos livros e estou sempre a ler coisas sobre o tema, procurando informações para desenvolver mais facilmente a ideia que vou, depois, pôr em prática. Depois disso, há um tempo de reflexão, um tempo para esquecer e fico dois, três, quatro meses sem pensar na peça, ao fim desse tempo, volto, então, outra vez aos livros e à literatura, volto a conceber ideias, verificar se aquilo que eu idealizava estava certo ou não, se é preciso corrigir algo ou não, além de haver sempre a possibilidade de criar novas ideias e junta-las às que já tínhamos. Esta fase abrange, mais ou menos, entre meio ano a oito meses. Depois, passamos, finalmente, à fase de execução, e aí a peça já está toda idealizada, é só pegar no barro e começar a construir. Uma vez construída a peça, elaboramos uma memória descritiva da mesma. Normalmente, faço um livro sobre essa memória descritiva e depois envio-a à pré-selecção que é na região norte e onde são seleccionadas oito peças. Seguidamente, essas oito peças vão para a FIL (Feira Internacional de Artesanato), em Lisboa, e onde figuram peças de todas as regiões do país.
Este é um processo que não é fácil se bem que dentre dois mil artesãos, o facto de haver a possibilidade de termos lá as nossas peças, já é uma coisa fenomenal. Aliás, eu costumo dizer que o meu verdadeiro prémio é colocar a minha peça em Lisboa onde 500 mil pessoas entram e vêem o nosso trabalho exposto. Quanto ao resto, se vencermos é maravilhoso mas se isso não acontecer, paciência, ao menos mostramos o trabalho. Além disso, quantas e quantas pessoas de todo o país e de todo o mundo vêm visitar a FIL? Dou-lhe um exemplo: um director de uma feira em Milão que anda há anos a chatear-me para ir a Milão… ou então o director da Feira de Tóquio que chegou à FIL, viu o meu trabalho e queria levar-me para Tóquio. Logicamente, por mais que gostasse, eu não tenho a capacidade de ir para Tóquio mas essa é a melhor forma de promover o nosso trabalho.
As feiras
Participar numa feira envolve sempre três ou quatro meses de preparação. É necessário acertar o espaço que vamos ocupar e mediante esse espaço, delinearmos qual o tipo de expositores que vamos lá colocar. Por outro lado, também precisamos saber que tipo de peças pode ser executado para aquele mercado. Porque a Feira de Lisboa tem um sector de mercado diferente do que se encontra na Feira de Vila do Conde. Em Lisboa há bons coleccionadores e em grande quantidade, já em Vila de Conde há muitos coleccionadores na mesma, mas envolve menos promoção e o mercado está orientado para um tipo de peças inferior ao de Lisboa. E nós temos que ter essa noção, de que para mercados distintos, são necessários produtos distintos.
Porque se nós fizermos para a feira de Vila do Conde, o mesmo produto que vendemos em Lisboa, não conseguimos vender em Vila do Conde. Mas se conseguirmos, em Vila do Conde, levar o produto certo para as pessoas que nos visitem, estas pessoas futuramente vão comprar o produto que se vende em Lisboa porque há possibilidade de os trazer à casa e de lhes mostrar mais trabalho. Logicamente, o cliente não tem a possibilidade de conhecer todos os produtos que fazemos em casa mas como está muito perto, dentro de um raio de 50 quilómetros, Porto, Maia, Póvoa, Braga, Viana, Guimarães… pode visitar-nos quando entender.
A região e o imaginário
Nas feiras, a apresentação é igualmente importante, falo da apresentação perante o produto que estamos a vender, a forma como nos dirigimos às pessoas, a forma como as pessoas encaram o nosso trabalho e o modo como ele está exposto. Nesta perspectiva, devemos associar sempre o nosso trabalho à região em que vivemos e pensar no que é que temos para mostrar. Nós não podemos falar única e exclusivamente do nosso trabalho, temos que falar do que nos rodeia, temos que falar dos mosteiros da região, dos licores, dos doces, da arquitectura, da arte, dos espaços verdes, nós temos que envolver tudo isso no nosso trabalho. Isto obriga a que as pessoas, mesmo não visitando, no imaginário delas, compreendam como é que o nosso trabalho se enquadra no meio disto tudo. E quando as pessoas levam um peça nossa para casa, estão a olhar para a nossa peça, estão-se a lembrar de nós e em que meio aquela peça foi executada e onde se insere sendo que depois todo esse meio envolvente é inserido nas suas casas, há toda uma ligação. Temos sempre a possibilidade de incutir no imaginário das pessoas um pouco da nossa região. Conseguimos passar este imaginário para a cabeça delas e desse imaginário fica a curiosidade e eles depois procuram-nos. Vêm, aqui, pessoas de todo o país visitarem-nos à oficina. Procuram esse tal lugar que lhe despertou o imaginário. Então visitam tudo o que nós falamos, os mosteiros, as gastronomias, os licores, a doçaria, e assim ficam a conhecer a região.
Melhores prémios
Todos os prémios são maravilhosos mas se me perguntar se algum prémio nos deu um gozo maior, responderia que, talvez, o primeiro prémio internacional de artesanato que ganhei em Lisboa (FIL), por exemplo, como também o deste ano, em Vila do Conde. Havia dez anos que tinha deixado de participar no concurso nacional de Vila do Conde. No entanto, ao fim de dez anos, volto a Vila do Conde e consigo ganhar o primeiro prémio nacional, quer ser, é uma satisfação fora de série e estranha ao mesmo tempo. E depois deu-me gozo por várias razões, primeiro por rever uma série de coleccionadores que já não via há dez anos e de me lembrar deles, dos filhos, das peças que eles compraram há dez anos atrás. Além disso, porque tive a possibilidade de mostrar esse trabalho a uma série de pessoas novas e porque os coleccionadores anteriores sentiram a evolução do meu trabalho. Finalmente porque Santo Tirso nunca ganhou nada em Vila do Conde se bem que também nunca tinha ganho em Lisboa. De qualquer forma, é importante termos o princípio que nós não somos ninguém, sozinhos, e aproveitarmos a hipótese de darmos algo para o nosso concelho e para o meio em que estamos inseridos.
Com qualidade se educa
É necessário dar a conhecer os produtos portugueses mas sou da opinião de que as feiras de artesanato haviam de ser só para profissionais. Uma boa feira deve incluir uma selecção muito rigorosa do produto que se expõe. E nós só defenderemos verdadeiramente o artesanato e os artesãos quando tivermos essa noção de que o artesanato deve primar pelo profissionalismo e pela qualidade. A melhor forma de educar as pessoas é com a qualidade. As pessoas só aprendem se nos tivermos uma feira, por exemplo, com 50 artesãos, bons profissionais, com pessoas que executam um trabalho perfeito, que têm o cuidado de fazer o levantamento do que estão a fazer e que manuseiam o material com excelência. Não vale a pena chamarmos feira de artesanato a tudo o que é feira de pessoas que fazem umas habilidades…
Uma relação de amizade total
Só trabalhamos por encomenda portanto está salvaguardada a futura relação de venda com a pessoa que pretende adquirir peças. No entanto, há uma particularidade: é que nós só vendemos peças depois de conhecermos as pessoas. Antes de passar a comprador, o cliente passa a amigo. As relações que mantemos são de amizade total, e a partir da amizade, nós podemos fazer ou não os negócios mas isso é secundário. O que dizemos aos clientes é: muito bem, você pode gostar do meu trabalho mas a peça que eu vou executar é como se fosse um filho. E eu quero que o senhor depois o leve e o trate bem. E repare, quando a pessoa depois vêm para comprarem peças, sabem a que tipo de pessoa é que o comprou. Como é que nós vivemos, a nossa forma de estar em casa, a relação que temos com o nosso trabalho, o nosso dia-a-dia, o que vestimos, o que comemos, os nossos gostos, o que fazemos nas horas livres, com que pessoas é que nos relacionamos, e os clientes gostam disso. E depois de eles saberem isto tudo, depois de nós os chamarmos cá e dar-lhes a possibilidade de se conhecerem todos uns aos outros, começamos a vender peças. E esta relação é, de facto, espectacular em termos humanos e em termos profissionais.
Um roteiro para os amigos
Outra coisa interessante, é pegar nas pessoas que nos visitam e leva-las aos pontos culturais de interesse da nossa região. Deixamos de trabalhar, paramos por algumas horas ou até dois ou três dias se tiver que ser e levamo-las aos locais que pensamos ser de referência. Levamo-los e explicamos aquilo que lhe estamos a mostrar, a origem dos produtos que estão a consumir, o modo como as pessoas desta região vivem, o porquê de as pessoas se interessarem ou não pelas artes, a forma como a nossa região está mudar o seu estilo. A visita que eu proporciono aos meus amigos e clientes engloba um roteiro gastronómico, arquitectónico, cultural… na minha opinião, todos nós, cidadãos, temos a obrigação de promovermos os produtos da região e quanto mais quem tiver mais facilidade em chegar às outras pessoas fizer isso, melhor é para todos. Não podemos estar à espera das entidades que têm a obrigação de os promover. Temos é que desenvolver um sentido, enquanto seres humanos, de obrigação perante os outros e esse é o espírito que incutimos aos nossos filhos aqui em casa, tudo o que podermos dar aos outros também nos vai realizar. Neste sentido, a melhor forma de vermos o nosso trabalho reconhecido são os grupos de amigos que vamos juntando aos que já temos. E o mais engraçado é que são aqueles que já temos que nos trazem novos amigos…
Em casa não há distinções
Os nossos clientes atravessam todo a estrutura social. São cidadãos absolutamente normais, que desempenham a suas profissões, desde operários, por exemplo, até ministros e doutores, ou seja, abrangemos todas as áreas. A nossa forma de estar na vida, a nossa forma de ser perante os outros dá perfeitamente para enquadra-los uns com os outros. Sendo assim, aqui em nossa casa não existem classes sociais. São todos iguais, todos senhores e senhoras… E isso é muito importante. Como costumo dizer, nós temos peças para todos os preços, desde 70 a 70 mil euros.
Algumas peças, nós não vendemos
Algumas peças, nós não vendemos porque nos afeiçoamos demasiado a elas – são peças que executamos com um certo espírito, com uma forma de pensar diferente, com técnicas diferentes e que nos dizem algo. Envolvem as nossas vivencias e convívios passados com certas pessoas, a forma delas olhar, a forma delas falar, a forma delas reagir, formas de estar e viver distintas. Essa forma de expressão humana é depois retratada no barro. Como sabe, quem anda metido no mundo da arte, normalmente, tem uma forma muito própria de ver as coisas. E uma das coisas a que ninguém liga e à qual dou muita importância é, por exemplo, nas feiras semanais ou nas romarias, a forma como as pessoas mais velhas vestem, a forma como olham para a banda de música ou como se comportam nas procissões, perguntarmo-nos porque é que veste um casaco verde e umas calças lilás? Porque é que a mulher vem de lenço azul e uma camisola cor-de-rosa? E, hoje em dia, muitos podem olhar e dizer: que disparate, que falta de combinação. Mas não é nada disso, é o lado mais puro e espectacular do ser humano, é quando este faz as coisas genuinamente, é a sua forma de viver, é a sua forma de estar, é esse andar feliz, aqueles sorrisos rasgados, aqueles olhares reluzentes… Isso para nós, é fabuloso.
A Custódia
Se me perguntar qual é a peça que considero mais gratificante, devo dizer-lhe que gosto de todas mas há uma que me fascina mais um bocado, é a custódia que eu executei no âmbito da FIL e com a qual ganhei o prémio, em 2005. Esta peça mede mais ou menos um metro de altura e se quer saber, demorei cerca de dois anos para idealiza-la e completar os estudos necessários. O tema do concurso era muito interessante: o ouro da terra e o sonho das mãos. Para o ouro da terra, fui às raízes da nossa região, desde a forma como as pessoas trabalhavam aqui na nossa zona, os campos, os pipos, as cestarias, a latoaria, a própria forma de modelar o barro, no fundo, eu recuei 50 ou 100 anos na vida das pessoas. Depois abordei uma característica muito própria da nossa região, o milho e as vindimas e retratei esses dois ciclos, o ciclo do pão, desde o semear até estar na mesa e o ciclo do vinho desde o plantar das uvas até nós o bebermos e, isto tudo, pormenorizado em cerca de 85 ou 86 figuras de três, quatro centímetros. A juntar a todas essas tradições antigas, representei igualmente a forma como as várias regiões do nosso país vestiam e trajavam. Tratou-se de um processo muito complexo pelo que demorei três meses a executar a peça, três meses de domingo a domingo, das 9 da manhã até a meia-noite. Durante este tempo de criação, encetei um autêntico processo de revivalismo, sentia-me na pele do meu avô ou do meu tetravô, tal como se estivesse inserido no ambiente da época. O engraçado é que depois de estar o trabalho pronto, parece que no meu dia-a-dia ainda faço parte disso e, por vezes, sinto dificuldades em separar o que eram os dias de há cem anos atrás e os dias de hoje. Sinto essa ligação entre uma época e outra. De facto, vivo demasiado este género de trabalho e esta peça marcar-me-á até ao fim dos meus dias.
Depois do trabalho
Esta peça foi vencedora do Prémio Nacional de Vila do Conde. Retrata uma época em que as pessoas iam para os campos, uma época em que não havia máquinas, em que o milho e as uvas eram tratados à mão. Depois de executarem o trabalho no campo, as pessoas convivam todas, sentavam-se, conversavam, discutiam, riam e confraternizavam. Além disso, depois do trabalho, estavam cansadas e, por isso, comiam e bebiam. A minha peça refere-se a isso, à alegria que as pessoas tinham depois de executarem o trabalho, quando elas regressavam à casa do senhorio onde eram feitas grandes merendas. Contém à volta de 200 figuras e pretende transmitir esse espírito e forma de estar. Hoje, usa-se maquinaria para trabalhar no campo mas não há esse convívio, o vinho tinto, o “pintar a língua” como lhe chamavam, o “mostra lá o teu rim a ver se é melhor que o meu”, as pataniscas, o peixe frito, o pão cozido na casa do senhorio, aquela abertura que o senhorio ou o dono do campo tinha perante aqueles trabalhadores. O que me fascina é a humanização que havia naquela época.
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O artesão Delfim Manuel pode ser contactado através do nº de telefone: 252 850 456 ou nas instalações do seu ateliê: Rua do Loureiro, nº 8, 4795-211 Rebordões, Santo Tirso.
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