Desde a minha demissão do “Notícias do Vale” que não tenho escrito nem partilhado opinião das circunstâncias que os meus olhos vêem e a minha alma regista acerca das pulsações do quotidiano nacional e local. Fi-lo propositadamente, pois achei conveniente impor a mim próprio este parapeito de reserva. Não foi, de forma alguma, por sentir-me limitado na minha liberdade de expressão, corrente que vai fazendo carreira desde os tempos da enigmática onda da “asfixia democrática”, imagine-se, neste Portugal livre e indiscutivelmente maduro no que toca às liberdades e garantias dos seus cidadãos.
Deixem-me, a propósito, que vos diga, francamente, que considero todo este espectáculo uma espécie de circo antigo, feito de números improvisados, uns atrás dos outros, denotando, agora a sério, uma indecorosa falta de elevação intelectual, como se fosse possível manipular, condicionar ou silenciar jornalistas e canais televisivos (em lote e em magote) sob a batuta de planos fantasiosos, engendrados de maneira laboriosa e susceptíveis de não levantar suspeição. Seria, de todo, carnavalesco que isto fosse verdade… ou estaríamos perante gente impreparada – primeiro-ministro e seus colaboradores directos – e incapaz de compreender que estas matérias vêm sempre ao de cima e têm na praça pública um julgamento inflexível e irremediavelmente castrador. Acredito que nas edições e redacções dos jornais e noutros órgãos de comunicação social, nomeadamente na televisão, interesses económicos e publicitários se sobrepõem, de quando em vez, a interesses editoriais – e sei do que falo. Agora, expurgar excertos de escutas efectuadas no âmbito de processos judiciais, juntá-los em efeito de puzzle inacabado e desencaixado, formatar uma história da “carochinha” e pôr tudo e todos a pedir clamorosamente a cabeça dos nossos governantes, vilipendiados pela saga de uma neo-era vampírica, só pode ser fruto de mentes francamente irresponsáveis, cinematográficas e sedentas de sangue governamental. Mas como neste país nada nos causa estranheza, talvez estejamos perante um “escutagate” de consequências imprevisíveis e nefastas para a governabilidade e estabilidade deste rectângulo triste, enfadonho, copiosamente rude e repreensivelmente displicente. Depois vem a hipocrisia… toda a gente advogava há imenso tempo que Manuela Moura Guedes nunca teve perfil de jornalista, sobretudo em questões de seriedade, imparcialidade e independência, para não falar na sua “sui-generis” postura jornalística (recorde-se, aqui, a sua incursão pelo parlamento e a promiscuidade que resulta entre a tarefa executada pela garfo de deputada e pela faca de jornalista – um caldo explosivo! O primeiro-ministro “teve-os no sítio” ao criticar tal comportamento e… aqui d’el rei! Este foi o mote para tamanha trama que vai servindo para alimentar as aberturas dos noticiários e as páginas de muitos jornais em regime de pré-falência, valendo tudo para mais uma ediçãozinha extra, em puro estado de desespero. Depois… bem, depois, as comissões parlamentares de ética, que mais não são que um complemento às actividades circenses enunciadas no meu primeiro parágrafo.
Já em S. Martinho do Campo, o apagão que se verifica a nível nacional também aí cria raízes, e é de tal forma visível que não se vislumbram quaisquer transformações capazes de nos fazer crer que mudanças significativas estarão para acontecer. Vão surgindo demissões, renúncias a cargos públicos e outros actos de inegável complexidade e entendimento e as pessoas vêem-se privadas do acesso a informação que lhes dê com todo o rigor a verdade factual e motivacional desses acontecimentos. Das duas, uma: ou os protagonistas se reservam o direito de não se pronunciarem sobre tais temáticas ou os meios de comunicação existentes não dão os passos necessários à obtenção dessa mesma informação, até porque há demissões formais que nem chegam a ser publicadas pelos jornais, nomeadamente a da directora-adjunta do quinzenário a que faço referência no início deste artigo. Estranho, no mínimo. Isso, sim, prefigura um atentando à liberdade de informar e reforça, ainda mais, a tese do incumprimento editorial.
O apagão intelectual, informativo, cultural e de desenvolvimento instalou-se definitivamente em S. Martinho do Campo. Talvez tudo isto seja consequência da grave crise que o meio atravessa quanto ao desemprego, o que leva a que crises sociais acentuadas tenham reflexo directo nas outras envolvências, no mundo das ideias e nas sinuosidades dos projectos. Tirando a iniciativa da EBI no que toca à organização de uma Feira Medieval agendada para Junho próximo, pouco resta para além das festas da vila e das iniciativas da “AS”, onde se vai apreciando algum do excelente trabalho das associações. É, no entanto, muito pouco para uma vila como S. Martinho do Campo. A degradação das suas vias de comunicação, da sua avenida principal, a inexistência de espaços obrigatórios, nos tempos que correm, para a prática de desporto e o consumo de cultura, as obsolescências dos edifícios abandonados que outrora dinamizavam o seu meio comercial e industrial vai catapultando S. Martinho do Campo para uma espécie de adormecimento que nos recorda as aldeiazinhas resignadas do interior… e resignação é atributo dos fracos!
Cidálio Castro
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Se pensarmos que nas eleições para o Parlamento Europeu, ganhou a abstenção, o voto nulo e branco, com 69 por cento, concluímos que o povo está farto da farsa União Europeia.
